
Prezado Novo Humanóide… e caríssimo Anti-Usual

Em 1989 o quadrinhista Odyr realizou um projeto bastante interessante, chamado Tudo – Quadrinhos Contemporâneos e apresentou na Escola Municipal de Belas Artes Heitor de Lemos, em Rio Grande. Esse trabalho consistia em uma exposição com quase duas dezenas de ilustrações coloridas de uma série de personagens saídos do imaginário do artista, além de um audio-visual chamado Alice, uma releitura de Alice no País das Maravilhas mixado com William Blake, produzido em conjunto da arte-educadora Teresa Lenzi e de Law. Ainda com Law, Odyr distribuiu durante a abertura da exposição o fanzine de mesmo nome, Tudo – Quadrinhos Contemporâneos, com histórias em quadrinhos dos dois além de uma grande entrevista com Moebius traduzida da Heavy Metal. Entre os tantos convidados presentes naquela noite estava Cleomar Gonçalves, um quadrinhista da cidade vizinha de Canguçú, que vinha fazendo alguns fanzines experimentais e estava interessado em fomentar uma cena alternativa regional. Foi exatamente isso que ele propôs para Odyr e Law naquela mesma noite, entre vinhos e performances típicas de um vernissage, que se unissem para editar um fanzine grande, cheio de inquietações gráficas e uma certa ambição narrativa. Batizaram o nome da coisa de Humanóide e depois para Novo Humanóide. Afinal todos naquele momento tinham seus afetos por Moebius e aquela turma francesa dos Humanoides Associes.

na capa

Finalmente em março de 1991 chega o primeiro número do Novo Humanóide, com uma capa exclusiva do grande artista brasileiro Júlio Shimamoto, e apresentando histórias em quadrinhos experimentais e repletas de dramas humanos, através dos trabalhos de Odyr, Cleomar, Marco Muller e Wally e as aventuras de ficção-científica cyberpunk de Law que sempre oferecia plots distantes do resto da turma. Com o tempo a ficção-científica acabou conquistando mais espaço, com algumas histórias em quadrinhos de Moebius que foram pirateadas e traduzidas das edições francesas e outras intervenções surrealistas de Henry Jaepelt, outro quadrinhista brasileiro com vasta produção na cena alternativa. E por falar em cena alternativa, o surgimento do Novo Humanóide coincidiu com a publicação da revista Animal que através de Fábio Zimbres e seus comentários sobre fanzines no encarte Mau acabou desencadeando uma invasão de fanzines que circulavam por todo o mapa do Brasil. Na edição número seis da Animal, Fábio Zimbres dedicou um valioso espaço comentando o trabalho que o grupo fazia no Novo Humanóide. Isso mexeu com os corações e mentes de todos, e logo sentiram-se motivados a fazer mais fanzines. Muito mais!

ensinou todo mundo a ler e fazer quadrinhos decentes!

virou ídolo do underground.
O Novo Humanóide seguiu sendo lançado sempre com uma periodicidade irregular, como são a maioria dos fanzines, mas nunca desanimando em suas experiências em busca de um quadrinho de autor. Odyr continuava com seus dramas, desenhando quadrinhos em diferentes diagramações e colagens, Cleomar e Marco Muller investiam nas narrativas poéticas e Law não conseguia largar a Cidade Cyber…

com jeito de Ingmar
Bergman.


, outro quadrinho bastante importante de Odyr, que apareceu no Novo Humanóide.

e Agente D na Cidade Cyber.

desenhos do Law.

Quase na metade dos anos 1990 as coisas mudaram. A revista Animal desapareceu das bancas para sempre e a turma do Novo Humanóide resolveu partir para outros projetos. Alguns até fizeram viagens para lugares distantes. Isso acabou decretando a morte do Novo Humanóide, mas não daquele desejo de criar um quadrinho nacional alternativo, cheio de esperanças narrativas e pretensões gráficas contemporâneas. Mas nem tudo estava perdido. No Rio de Janeiro existia Alberto Monteiro e o seu fanzine Anti-Usual, que acabou reunindo novamente os artistas do Novo Humanóide – e tantos outros rebeldes espalhados pelo Brasil – nas páginas desta publicação verdadeiramente unusual e de vanguarda. Alberto Monteiro além de ser um excelente artista, trouxe para a cena alternativa brasileira, através de seus fanzines e colagens, uma produção forte, autêntica e rica de idéias e desenhos. Durante alguns anos o Anti-Usual circulou pelo nosso underground ditando moda e postulados a respeito de como se deve fazer um verdadeiro fanzine, e um verdadeiro quadrinho de autor. Depois do cancelamento do Anti-Usual, por questões que desconhecemos, Alberto Monteiro ainda apareceu com o Hauuzc, que afinal se mostrou como um outro nome para as mesmas coisas que já existiam no Anti-Usual.


foi a última lembrança daquela época.

publicou no Hauuzc, depois foi viver em Londres.
Mas não desanime, caro leitor da Areia Hostil, pois a partir de agora, muitas histórias em quadrinhos e artes que foram publicadas no Novo Humanóide e Anti-Usual podem ser conferidas aqui pela primeira vez em cores!