CUIDADO! A CIDADE CYBER

ESTÁ ATRÁS DE VOCÊ!

 

   

 

 

 

    ANOS 1980

 

    Nasce nas páginas do fanzine X-TRO as primeiras aventuras de Anti-Cimex, um anti-herói cyberpunk em violentas aventuras pela Terra Devastada. Longe, ainda, das ruas da Cidade Cyber, Anti-Cimex e sua coleção de armas de grosso calibre  seguia enfrentando diversos vilões bem ao estilo Mad Max. Lutas em zonas radioativas, mutantes anarquistas e manipulações tecnológicas eram os ingredientes básicos, tudo sob a influência das performances de bandas de rock como Sigue Sigue Sputnik, Alien Sex Fiend e da própria banda de hardcore sueca de onde o personagem tirou seu nick: ANTI-CIMEX.

  

Fanzine X-TRO #01 (1986)

Anti-Cimex

    X-TRO teve seis edições mensais – agosto de 1987 / janeiro de 1988 – e, em suas páginas, além das histórias em quadrinhos do exterminador Anti-Cimex, havia colagens diversas sobre Apocalipse Now, Exterminador do Futuro, Adam And The Ants, Residents, Mad Max, Druillet, Shimamoto...

    Paralelamente às edições do X-TRO surge o fanzine TUDO - QUADRINHOS CONTEMPORÂNEOS editado pelo artista gráfico Odyr. Para esta edição, um drama bastante diferente para o Anti-Cimex: Aqui ele é jogado numa Cidade Cyber governada por uma sociedade midiática opressora. No plot pulsam citações que vão de Stephen KingThe Running Man – a Max Headroom. Foi uma experiência bastante válida onde descobri que era possível discutir "cyberpunk" sem precisar utilizar um fuzil de assalto. Essa história marca o início do fim das aventuras adolescentes!

Fanzine TUDO (1988) - Detalhe da HQ R.G.

 

    ANOS 1990

 

    No final dos anos 1980, com o cancelamento do X-Tro surge um outro projeto de fanzine, bem mais pretensioso e sob a influência da Revista Animal e Fábio ZimbresMaudito Fanzine – o NOVO HUMANÓIDE. Esta foi uma produção coletiva desenvolvida por Cleomar Gonçalves, Odyr, Cláudio M.S.M., Marco Muller, Alberto Monteiro e... Law Tissot: Neste fanzine exorcizamos todas nossas influências de outras mídias em diversas histórias em quadrinhos experimentais. O próprio nome  do fanzine remete diretamente aos franceses da Metal Hurlant (Moebius, Druillet...), mas foi além. David Lynch, Isabelle Adjani, Woody Allen, Love And Rockets, Laranja Mecânica, Laurie Anderson, Blade Runner, Andy Warhol, Jim Jarmusch, Joy Division, Sonic Youth e um vasto etc. Toda essa fogueira de influências desabou sob nossas cabeças e pouco a pouco fui abandonando a violência gratuita típica das películas Mad Max, colocando mais drama nas histórias em quadrinhos. Nesse período Anti-Cimex simplesmente desaparece e a Cidade Cyber ganha uma série de personagens e criaturas bastante angustiadas, performáticas e...pós-modernas!

 

Fanzine NOVO HUMANÓIDE #05 (1990)

Detalhe da HQ O Imortal

    NOVO HUMANÓIDE teve seis edições numa periodicidade irregular – de 1989 até 1992 – e publicou, além das histórias em quadrinhos dos editores uma série de artigos e resenhas sobre filmes, literatura, arte e comportamento.

 

    Em 1991 me aliei aos quadrinhistas Dikos (Argentina) e Cláudio M.S.M. (Pelotas) e criamos o fanzine E.G.M Electronic Gore Mixed Up. Desta vez a música era o principal combustível... Escutávamos Sigue Sigue Sputnik, Laibach, Einsturzend Neubauten, Front 242 e Joy Division da manhã à noite e desenhávamos histórias pessimistas. Reunimos nossos melhores trabalhos e divulgamos pelo underground. No E.G.M. realizei um trabalho que esgotou minhas obsessões por Blade Runner, Brazil – O Filme, Laranja Mecânica e Charles Baudelaire...

Fanzine ELECTRONIC GORE MIXED UP (1991)

Detalhe da HQ Cidade Cyber

    Minha parceria gráfica e narrativa com Cláudio M.S.M. rendeu um outro produto chamado CONTROL TRANSMISSION. Um fanzine que teve duas edições, uma em preto-e-branco, distribuído no underground brasileiro, e outra de tiragem reduzida mas totalmente colorida enviada para uns contatos da cena alternativa de Portugal. Para esse fanzine fiz diversas histórias curtas da Cidade Cyber, reciclando velhos desenhos e citações de algumas bandas cyberpunk (eletrônicas & techno) como Skinny Puppy,Nine Inch Nails, Loop B, Killing Joke, Self & Inhumanoids, etc, etc.

Detalhe da HQ Banho de Ácido

Zine CONTROL TRASMISSION (1992)

Detalhe da HQ Cidade Cyber

    Em 1997 resolvi trazer o NOVO HUMANÓIDE de volta e fiz tudo sozinho. Meus amigos das lendárias edições anteriores tinham partido para outros projetos e alguns para outros países. Na verdade eu precisava de um fanzine para publicar os GÓTICOS-CYBERNÉTICOS, personagens que traduziam minhas novas influências. Havia muita coisa que tinha descoberto nesse período a respeito de várias mídias com essa estética e discurso literalmente cyberpunk...William Gibson – Neuromancer, Count Zero, Burning Chrome, Mona Lisa Overdrive –, Jean Baudrillard  – Simulacros e Simulações  – e as músicas do Ministry, Sisters Of Mercy, Prodigy, Atari Teenage Riot... Os Góticos-Cybernéticos tomaram as ruas da Cidade Cyber de assalto em muitas aventuras.

Fanzine NOVO HUMANÓIDE #07 (1997)

Detalhe da HQ Os Góticos-Cybernéticos

    Editar o NOVO HUMANÓIDE sozinho me deprimiu bastante. Este fanzine sem a participação dos velhos companheiros era como viver numa mansão vazia. Mas queria continuar desenvolvendo as idéias com os Góticos-Cybernéticos. Produzi um fanzine chamado REVOLUÇÃO INDUSTRIAL. Uma edição toda colorida onde usei pela primeira vez diversos amigos, das tribos urbanas do underground de Rio Grande como inspiração para alguns plots e personagens.

 

Fanzine REVOLUÇÃO INDUSTRIAL (1997)

Detalhe da HQ Revolução Industrial

     Logo após o Revolução Industrial realizei um outro projeto coletivo, o EXPLODA-SE, junto com os artistas Yuri Hermuche & Ricardo Borges (Brasília), Dikos (Argentina), Alberto Monteiro (Rio de Janeiro) e Weaver (Fortaleza). Este fanzine teve uma fórmula meio Novo Humanóide, muitas idéias e ideais. Mas a distância geográfica dos editores acabou dificultando a continuidade. A única edição trouxe uma entrevista com Fábio Zimbres e pareceu que era apenas isso mesmo, um bando de saudosistas que não sabiam muito bem para onde ir. Com o EXPLODA-SE acabei me cansando dos Góticos-Cybernéticos, que foram enterrados no NEW PLEASURES! ENJOY! um mini-zine distribuído para uns amigos góticos no cemitério local. Foi uma bela performance numa noite fria, para aqueles personagens de papel que viraram lendas urbanas desta Cidade Cyber.

Capa do fanzine EXPLODA-SE (1997)

Capa do Fanzine NEW PLEASURES!ENJOY! (1998)

    Quase no final dos anos 1990 ou um pouco antes disso , participei do CYBERCOMIX, um importante site dedicado às histórias em quadrinhos, que se tornou uma espécie de ilha da fantasia para quadrinhistas de todos os níveis gráficos possíveis e de todos os cantos do mapa do Brasil. As histórias que publiquei no Cybercomix foram criadas literalmente a partir dos meus amigos do underground de Rio Grande. Tomei muitos depoimentos, observei as tribos urbanas e procurei traduzir todo aquele drama numa visão gráfica futurista. Definitivamente a Cidade Cyber tinha agora a forma que sempre desejava. Foi a partir daquelas histórias que senti a necessidade de trabalhar novamente com personagens fixos. Logo após o trabalho para o Cybercomix, lembrei que havia deixado, nos anos 1980, um tal Anti-Cimex vagando sozinho pelos desertos da Terra Devasta. Pensei em trazê-lo de volta para enfrentar as  novas sombras que conquistavam as ruas da Cidade Cyber.

 

    Enquanto não decidia que tipo de roteiro teria eficácia para novas aventuras do velho Anti-Cimex, editei três edições de um fanzine nomeado CYBERPUNK -  OBJECTIVE: WORLD DOMINATION. As edições eram repletas de idéias e colagens tiradas da revista WIRED e do livro ESCAPE VELOCITY de Mark Dery. Nesta ocasião fiz a história em quadrinhos A CASA DAS MENTIRAS, que mostrava diversos personagens barulhentos, perambulando perdidos, pelas ruas da Cidade Cyber. Continuavam os fragmentados roteiros com citações tiradas de bandas de rock, como PLASMATICS, MARILYN MANSON, EINSTUERZENDE NEUBAUTEN (particularmente o disco de 1989, Haus Der Leuge)... Mas também do cult movie LIQUID SKY (Slava Tsuzerkam). Embora fosse uma produção bastante divertida, aquelas histórias necessitavam de um personagem fixo. Mas não tinha encontrado ainda a motivação certa, para fazer com que Anti-Cimex entrasse na Cidade Cyber.

Zine CYBERPUNK #01 (1999)

Zine CYBERPUNK #02 (1999)

Zine CYBERPUNK #03 (1999)

Detalhe da HQ A CASA DAS MENTIRAS

Detalhe da HQ A CASA DAS MENTIRAS

 

    SÉCULO 21

    Em meados do ano 2000 fui convidado por Gustavo Valladares (Nova Friburgo, RJ) para publicar alguma série fixa no seu fanzine VEGETAL – o nome é um trocadilho com o título da lendária Revista Animal. Esse foi um trabalho que refrescou minhas idéias. Justamente naquela ocasião não conseguia realizar roteiros para a Cidade Cyber e aproveitei para mexer novamente naqueles velhos conceitos da GARAGEM HERMÉTICA de Moebius. Os VEGETAIS CYBERNÉTICOS foram sendo desenhados de uma maneira muito tranqüila. Era apenas soltar a mão e ir criando situações  e personagens. No início isso funcionou e fiz uma produção regular... até que eles desapareceram do meu imaginário e o Gustavo acabou desistindo de me cobrar uma continuação. De qualquer maneira, os nove capítulos dos Vegetais Cybernéticos serviram para me colocar novamente frente a frente com a cultura cyberpunk e enterrar os "delírios de Moebius" na minha existência!

 

Detalhe da HQ VEGETAIS CYBERNÉTICOS

Detalhe da HQ VEGETAIS CYBERNÉTICOS

    Enquanto insistia em idéias para possíveis roteiros para uma nova fase da Cidade Cyber, criei o portfolio CONTROL: A NOVA ORDEM MUNDIAL. Um material que definia alguns antagonistas, apresentando lendas urbanas e teorias da conspiração. Esses elementos e códigos traduziam uma perfeita simetria! No mesmo ano – 2001 – me fascinei pelos quadrinhos THE INVISIBLES de Grant Morrison e pelo livro O PÊNDULO DE FOUCAULT de Umberto Eco e também as idéias sobre cybercultura do filósofo francês Pierre Lévy.

Capa do portfolio CONTROL: A NOVA ORDEM MUNDIAL

Detalhe da HQ SATÉLITE

    Foi então que o prazo para fechar a primeira edição da AREIA HOSTIL se esgotou. Reuni velhos desenhos e fiz um texto a partir das correspondências trocadas com Tony James (baixista e líder da banda inglesa Sigue Sigue Sputnik). Nasceu A CIDADE CYBER NUNCA DORME apresentando na última página da história um Anti-Cimex sem máscara e introspectivo, que refletia como nunca as minhas próprias paranóias humanas. A série continuou sendo publicada – e construída - nas outras edições da AREIA HOSTIL até que finalmente, a partir da terceira parte do arco ENTROPIA NA CIDADE CYBER (edição #05 / janeiro de 2003) as coisas começaram a se desvelar de uma forma mágica, como nunca, até agora.

 

Law Tissot, Rio Grande, outono de 2003.

    Para melhores informações a respeito de cultura cyberpunk sugerimos o trabalho do Prof. Dr. André Lemos, da Universidade Federal da Bahia.