Areia Hostil entrevista Edgar Franco

Por Débora Lucas (02/11/04).

Edgar Franco desenvolveu o prazer de contar histórias desde quando aprendeu a falar e logo descobriu a linguagem das histórias em quadrinhos como um dos melhores veículos para sua expressão, mas junto com elas também sempre experimentou outras mídias e linguagens, escrevendo contos e poemas, ilustrando livros, revistas e capas de CDs, projetando arquitetura e websites, além de brincar com os sons em seus projetos musicais Essence & Mu.

Formou-se em arquitetura na Universidade de Brasília, e fez seu mestrado em Multimeios na Unicamp. Entre seus trabalhos de quadrinhos mais importantes estão os álbuns Agartha (Editora Marca de Fantasia) e Biocyberdrama, em parceria com Mozart Couto (Opera Graphica); atualmente Franco tem experimentado criar trabalhos para suportes hipermidiáticos, batizando essa linguagem híbrida de quadrinhos e hipermídia de “HQtrônicas”(histórias em quadrinhos eletrônicas), um de seus trabalhos intitulado Neomaso Prometeu recebeu menção honrosa no 13º Videobrasil – Festival Internacional de Arte Eletrônica (Sesc Pompéia/2001), além disso foi premiado recentemente no programa “Rumos Pesquisa 2003” do Centro Itaú Cultural em São Paulo, com sua pesquisa de doutorado (ECA/USP) “Perspectivas pós-humanas nas ciberartes”. É professor dos cursos de Arquitetura e Urbanismo & Ciência da Computação da PUC – MG (Unidade Poços de Caldas).

AH – Como e quando os quadrinhos surgiram na sua vida?

Edgar Franco – Bem, a história é parecida com a maioria daqueles que desenvolvem a paixão pela HQ, comecei a desenvolver o interesse por quadrinhos na mais tenra infância, incentivado por meu pai que comprava revistas da Disney, Mauricio de Sousa, Mortadelo e Salaminho, Luluzinha e outras. Dos 9 aos 12 anos deixei as HQs de lado e passei a interessar-me por cinema e literatura, lia principalmente livros de contos de terror e fantasia, tomando contato com gênios como Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant, O.Henry, e outros, além de adorar o cinema de fantasia e horror de mestres como Ridley Scott e Dario Argento. O meu retorno às HQs aconteceu por volta dos 13 anos quando passei a me interessar pelas revistas de terror da editora D-Arte – Mestres do Terror & Calafrio, que traziam HQs de terror desenhadas só por artistas brasileiros como Mozart Couto, Flávio Colin, Jaime Cortez e outros, ao mesmo tempo comecei a interessar-me por poesia simbolista, lendo caras como Baudelaire e Álvares de Azevedo o que me despertou para a auto-expressão, isto é, passei a expressar minhas dores e conflitos adolescentes na forma de poemas que escrevia nos cantos dos cadernos da escola. O amor pelo desenho veio junto pois desde novo tinha já um certo talento para a coisa, seguindo instruções trazidas nas revistas de terror comprei pena e nanquim e comecei a tentar desenvolver minhas próprias HQs, sempre com a preocupação de não copiar nada, o que deixava os resultados pouco satisfatórios. Dai em diante não parei mais!


AH – Qual foi a primeira temática que você trabalhou em suas histórias? E qual foi o mais marcante?

EF – Minha primeira HQ chamou-se “O Filho de Lúcifer” e foi publicada num zine chamado Odisséia, era um terrorzão gore mas já trazia esboçado meu texto narrativo poético que tornou-se uma de minhas marcas mais tarde. Aos poucos fui unindo minha veia poética à narrativa quadrinhística, passando a desenvolver também uma paixão por filosofia. Nunca me interessei por Super-Heróis e só vim a lê-los quando do surgimento das obras geniais de Frank Miller e Alan Moore, mas o grande momento foi o meu encontro com a HQ européia e o trabalho de mestres como Philipe Druillet e Caza, onde repensei completamente o conceito de HQ. Depois vieram os zines e o contato com outros trabalhos de vanguarda de contemporâneos geniais como Gazy Andraus, Flávio Calazans e Antônio Amaral, e aqui estamos nós envolvidos nesse universo fantástico dos quadrinhos. A todo dia estou recomeçando, procurando sempre melhorar e acredito que ainda estou só no começo! O meu trabalho mais marcante é sempre o que ainda está por ser feito, germinando na minha essência, como artista sou inquieto e sempre insatisfeito com o que fiz, mas se for pra apontar alguns trabalhos em especial posso citar o meu álbum “Agartha”, com uma HQ de 64 páginas que reflete sobre transcendência e matéria, foi publicado pela Editora Marca de Fantasia, é um trabalho conceitual com um sem número de referências às mais diversas teorias e hipóteses da existência de um paraíso após a morte e as implicações de uma possível persistência do ego; e é claro, meu álbum BioCyberDrama, uma parceria com Mozart Couto que teve ótima recepção de público e crítica. Gosto também de minha HQtrônica “NeoMaso Prometeu” que recebeu menção honrosa no festival Videobrasil. Para quem tiver interesse de navegar por ela, basta clicar na imagem abaixo:

AH – O que é uma HQtrônica?

EF – Minha dissertação de mestrado em multimeios na Unicamp trata da hibridização entre os códigos gráficos da HQ tradicional com as possibilidades abertas pelas hipermídias. Em dois anos de análises cheguei à conclusão de que as HQs hipermidiáticas não são mesmo aquilo que convencionamos chamar de “quadrinhos” , mas também não são desenhos animados. São, na verdade, uma nova linguagem híbrida que funde códigos da linguagem dos quadrinhos impressos como: o balão de fala, a divisão em requadros, a onomatopéia, etc; às novas possibilidades abertas pela hipermídia como: animação, diagramação dinâmica, efeitos sonoros, trilha, sonora, multilinearidade e interatividade! Eu intitulei essa nova linguagem de HQtrônica (um neologismo que funde o termo HQ – história em quadrinhos com o termo eletrônicas), em breve será lançado pela editora Annablume & Fapesp de São Paulo o meu livro “HQtrônicas – Do Suporte Papel à Rede Internet”, o livro é uma atualização de minha pesquisa e inclui um CD-Rom com minhas HQtrônicas “NeoMaso Prometeu” & “Ariadne e o Labirinto Pós-Humano”.

AH – Qual a vantagem de ligar a hipermídia com as histórias em quadrinhos?

EF – Com essa ligação surge um fenômeno intermídia que não é mais HQ, congregando outras possibilidades, uma linguagem nova, com nova sintaxe e em estágio inicial de consolidação. Não quero dizer que essa nova linguagem é melhor ou pior do que a linguagem tradicional das HQs em suporte papel, ela é apenas diferente, eu continuo gostando muito das HQs impressas e criando para essa linguagem, mas também estou abrindo o meu processo criativo para investigar as novas possibilidades das hipermídias. Uma linguagem não irá superar ou ameaçar a outra, elas conviverão pacificamente, como acontece com teatro, cinema, vídeo e os games.

AH – Atualmente essa ligação está sendo bem aceita?

EF – O número de sites que trazem HQtrônicas tem crescido muito nos últimos 3 anos, muitos artistas dos quadrinhos tem se interessado em criar utilizando as novas mídias, sem contar os jovens que já estão aderindo a esse tipo de linguagem hipermídia sem nunca terem desenhado HQs em suporte papel. Acredito que é uma nova possibilidade criativa com um grande potencial, apesar do problema maior que é a questão da remuneração pelo trabalho feito para a web…

AH – Quadrinhos: profissão ou lazer? Por quê?

EF – Viver de HQ no Brasil é quase impossível!! Eu estou conseguindo esse feito agora porque decidi seguir a carreira acadêmica, pesquisando sempre HQs é claro, o meu mestrado na Unicamp foi sobre HQ na Internet, no doutorado (ECA/USP) estou estudando narrativas híbridas e mídia arte, também sou professor dos cursos de Arquitetura e Ciência da Computação da PUC-MG, unidade Poços de Caldas. Meu estilo de narrativa, meu desenho, e o conteúdo de meus trabalhos, o inscreve em uma categoria que podemos chamar de HQ autoral, se fazer quadrinhos no Brasil é uma coisa difícil, imagine então fazer HQs poéticas & filosóficas. Mas eu não abdico de minha expressão pessoal e autoral por nada e continuo fazendo minhas HQs num bom ritmo, sempre buscando veículos interessados em publicá-las, como as revistas alternativas “Scarium”, “Areia Hostil”, “Quadreca (Eca/USP)”, algumas do exterior como “AHBD!” (da Romênia) e “Andromeda” (da Alemanha), sem contar os inúmeros fanzines. Eu já ultrapassei há algum tempo a marca das 1000 páginas publicadas, mas os únicos momentos em que o meu trabalho chegou a um publico maior foram com as revistas “Metal Pesado”, “Brasilian Heavy Metal”, “Quark” e “Nektar”. A editora Marca de Fantasia tem sido uma parceira maravilhosa, acreditando sempre no meu trabalho, ela lançou recentemente o meu álbum “Transessência”, coletânea de HQs curtas onde incluí alguns dos meus melhores trabalhos, também é possível adquirir ainda o já citado álbum “Agartha” e recentemente também foi lançado o livro “História em Quadrinhos e Arquitetura”, um ensaio teórico sobre a relação entre HQs e arquitetura, com mais de 40 ilustrações, incluindo uma HQ inédita minha no final. Os quadrinhos são a minha profissão, mas eu vivo do meu hobby que é ser professor e pesquisador!

EF – Ultimamente tenho feito diversas incursões pela FC, mais especificamente vários trabalhos em mídias diversas – todos dentro do universo que intitulei “Aurora Pós-Humana”, estou trabalhando na série de HQs curtas “Artlectos e Pós-Humanos”, que vem sendo publicada na Areia Hostil, Scarium e Quadreca, também estou desenvolvendo um projeto para transformar a “Aurora Pós-Humana” em um RPG. Além disso o álbum BioCyberDrama II, nova parceria entre Mozart Couto e eu, já está pronto e enquanto procuramos um editor para ele, já iniciamos os trabalhos de BioCyberDrama III, parte final da trilogia. Uma série de 3 novas HQtrônicas intitulada “Crepúsculo Pós-Humano” está aos poucos sendo elaborada e, por último, estou desenvolvendo um trabalho de web arte- que envolve vida digital & algoritmos genéticos – de nome “O Mito Ômega”, enfim, estou ativo e feliz com todos esses projetos que pretendo concretizar no seu devido tempo.

AH – Como está o mercado para esta área?

EF – Como eu disse viver de quadrinhos no Brasil não é uma tarefa fácil. O mercado de HQs é entulhado de material estrangeiro que chega a módicos preços para nossas editoras, já que já obteve muitos lucros em seus países de origem, podem ser negociados a preços convidativos, assim a concorrência com o produto nacional torna-se desleal. E tem também o problema da popularização de outras mídias como games, internet, DVD, tudo isso contribui para a diminuição do interesse pelos quadrinhos. Eu acredito que a longo prazo as HQs serão um produto cult, algo voltado para uma pequena parcela de interessados, publicadas em álbuns de luxo e distribuídas somente em livrarias, vai deixar de ser uma mídia de massa, isso não é legal, pois a formação de novos leitores ficará abalada, mas acredito ser inevitável.

Nós, do Estúdio Areia Hostil, agradecemos à jornalista Débora Lucas e ao quadrinhista Edgar Franco

 

por nos cederem o direito de publicar esta entrevista aqui no nosso site .

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Flagrantes Hostis – Areia Hostil #11

A festa de lançamento da Areia Hostil nº 11, ocorreu no dia 22 de janeiro de 2005, no espaço cultural ArtEstação, durante o 1º Espraiar do Cartum Gaúcho. Estiveram presentes no evento muitos nomes importantes do humor gráfico gaúcho.

De Porto Alegre, vieram os seguintes cartunistas da  Grafar (Grafistas Associados do RS):

 

Hals, atual presidente da associação

Hals, atual presidente da associação

o vice-presidente Rodnério Rosa

o vice-presidente Rodnério Rosa

Bier

Bier

Rodrigo Rosa

Moa

Moa

Eugênio Neves

Eugênio Neves

Mas é claro que a galera de Rio Grande marcou presença no lançamento da AH. Entre eles, alguns ex-alunos do curso de HQ Top Comics, como…

Kim e turma

Kim e turma

Sheila

Sheila

Érico Schroeder

o Sr. Arnold Coimbra, cartunista rio-grandino homenageado pelo 1º Espraiar do Cartum Gaúcho

Cecília Pucinelli, superintendente administrativa da SMEC

Law e Vanezza

Law e Vanezza

Prof Philomena

o Prof. Philomena, candidato a prefeito na eleição passada, pelo Partido Verde

e Rafael Vianna , uma das promessas da nova geração de quadrinhistas rio-grandinos

o nosso grande amigo Tomate “Rodolfo”

Sônia Tissot, secretária de educação do município, que na ocasião falou sobre a importância de um espaço como o ArtEstação para a cultura local

entre outras pessoas, que acompanharam o lançamento de mais uma edição da Areia Hostil, num clima de muita descontração e harmonia.

Ainda tem muitas outras fotos para mostrar, mas fica para a próxima edição de Flagrantes Hostis, até lá!

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Flagrantes Hostis – Areia Hostil #10

Músicos, artistas, professores, amigos e familiares estiveram presentes no lançamento do Areia Hostil 10 – no ArtEstação – na noite de 26 de setembro.

Law Tissot e Lorde Lobo apresentam os quadrinhos do Areia Hostil para o público do ArtEstação. No fundo, "seu" Rui e Dona Marilene (pais do Lobo).

Law Tissot e Lorde Lobo apresentam os quadrinhos do Areia Hostil para o público do ArtEstação. No fundo, “seu” Rui e Dona Marilene (pais do Lobo).

 

Maurício, Felipe e "Cacá", numa versão acústica do grupo Piranhas Verdes.

Maurício, Felipe e “Cacá”, numa versão acústica do grupo Piranhas Verdes.

 

Lorde Lobo autografava o exemplar para o leitor (e quadrinhista) Eduardo Porciúncula.

Lorde Lobo autografava o exemplar para o leitor (e quadrinhista) Eduardo Porciúncula.

 

Rudi Antunes (grande incentivador da Areia Hostil), e as professoras Fabiane Pianowski e Mariana Lima (com a Areia Hostil na mão).

Rudi Antunes (grande incentivador da Areia Hostil), e as professoras Fabiane Pianowski e Mariana Lima (com a Areia Hostil na mão).

 

O músico Jorge Maack também mostrou suas composições para o público presente.

O músico Jorge Maack também mostrou suas composições para o público presente.

 

Anael "Nenel" Pereira Isoldi, o mais novo leitor dos quadrinhos nacionais.

Anael “Nenel” Pereira Isoldi, o mais novo leitor dos quadrinhos nacionais.

 

Maurício Cunha, um dos grandes nomes da cultura de nossa cidade, também um amigo do Areia Hostil.

Maurício Cunha, um dos grandes nomes da cultura de nossa cidade, também um amigo do Areia Hostil.

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Areia Hostil entrevista O E. C. Nickel

Paranaense de São José dos Pinhais (Município da Grande Curitiba), Eloir Carlos Nickel se radicou em Florianópolis/SC, após ter morado por vários anos em Manaus/AM e Vila Velha/ES.
Teve suas primeiras HQs publicadas pela Grafipar de Curitiba e logo após começou a criar quadrinhos para a Editora Vecchi, na linha de terror e ficção-científica, nas revistas SpektroSobrenatural e Pesadelo. Na ICEA, editora de Campinas/SP desenhou dois números de Os Guerreiros de Jobah e várias HQs avulsas. A fase mais prolífica foi na Press Editorial, com Ofeliano de Almeida e Franco de Rosa, sempre na linha terror/FC. Teve um roteiro, com desenhos de Mozart Couto, publicado em Aventura e Ficção nº 17, da Editora Abril.
A retração do mercado de quadrinhos nacionais fez com que ficasse vários anos sem ter trabalhos publicados e interrompesse sua produção de quadrinhos. Agora está de volta ao mundo da nona arte e disposto a recuperar o tempo perdido.

O

Areia Hostil: Como foi que surgiu o teu interesse pelas histórias em quadrinhos?

O

E.C.Nickel: Muito cedo, mesmo. Desde que aprendi a ler tenho sido um leitor voraz. Meu pai tinha vários livros, principalmente romances policiais e de aventuras, entre eles alguns do Tarzan. Devorei a todos e, com isso, na tenra idade entre os 6 e 10 anos, creio ter feito ligações nos meus neurônios que estimularam os centros de imaginação e os responsáveis pela criatividade.
Daí para os quadrinhos foi só questão de oportunidade, sem jamais deixar de ler livros. Aliás, não vejo muita diferença entre literatura só com texto e literatura com imagens. Na primeira, basta preencher o quadro mental com as imagens evocadas pelo texto. Os bons livros são aqueles que melhor possibilitam isso.

OO

AH: Você partiu logo para uma produção profissional? Quero dizer, foi logo procurando uma editora, ou arriscou algum fanzine antes?

O

ECN: Só depois que publiquei profissionalmente é que colaborei com fanzines. Na verdade, naquela época (início dos anos 70), não haviam tantos como hoje. Creio que as dificuldades em se editar fanzines eram maiores. A qualidade deles, então, era de doer!… Com raras exceções, eram xerocados e, com o tempo, as páginas grudavam umas nas outras, um desastre!  Mas, mesmo assim, era muito legal colaborar com eles. Destaco, desta época, o Hiperespaço, do guerreiro José Carlos Neves, meu amigo de longa data, embora nunca tenhamos nos encontrado pessoalmente.

O

AH: Sim, eu lembro bem dos HiperespaçoJosé Carlos Neves é alguém que também admiramos, aqui, no Estúdio Areia Hostil. Por falar em Hiperespaço, ele trazia muitas informações sobre ficção-científica… cinema, livros, quadrinhos… A ficção-científica, já disse alguém, “é fácil de ser reconhecida, mas difícil de ser definida”. O que pensa sobre isso?

O

ECN: Há a definição clássica, mais para a Hard Sci-Fi que seria “toda a história fictícia que extrapola um ramo ou vários da ciência até seus limites, sejam eles plausíveis ou pura especulação imaginativa”. Na verdade, a maioria das grandes obras de FC não têm como preocupação básica a evolução ou descobertas científicas e sim as utilizam como um meio de criar um ambiente ou cenário onde as histórias acontecem. E histórias são sempre sobre pessoas, sejam humanos, alienígenas ou seres artificiais. Por isso muitas obras são realmente difíceis de classificar neste gênero. A ficção científica de que mais gosto é aquela com doses maciças de fantasia: Jack VancePhilip Jose FarmerClifford D. Simak e outros. Também gosto da que explora um lado mais psicológico, filosófico e existencialista, como a de Philip K. Dick e J. G. Ballard. Deste último, já li e reli incontáveis vezes o livroThe Drowned World, publicado em português, na Coleção Argonauta, como Cataclismo Solar. É um livro denso, poético, cheio de imagens fortes e evocativas da extinção inevitável de um mundo agonizante. Sou fissurado em todos os livros de Ballard que conheço, exceto Crash que simplesmente detestei. Nem acredito que foi ele mesmo que escreveu aquela coisa medíocre. E nem é questão de moralismo da minha parte. Não acho nem chocante, simplesmente de um terrível mau gosto.

O

AH: Até mesmo as tuas histórias em quadrinhos de super-heróis tem essa carga de referências tipicamente “ficção-científica”. Vejo elementos gráficos e narrativos que lembram Jack Kirby… Poderias falar um pouco das tuas influências gráficas? Assim como quais são teus quadrinhos preferidos.

O

ECN: É verdade. A maior parte da minha produção de quadrinhos é de ficção científica. Ultrax é um super-herói mas é também uma série de ficção científica, com todos os elementos deste gênero.

Jack Kirby é referência e influência constante nos meus desenhos. Mas certamente não sou o único. Fiz uma espécie de homenagem a ele no nosso site (www.quadroid.cjb.net), falando da influência que exerceu e exerce em grandes mestres dos quadrinhos, artistas que admiro profundamente, como Barry Windsor-SmithSteve Rude e Jose Ladronn. Também aprecio muito o quadrinho europeu: Moebius (o melhor desenhista do mundo!), BilalManaraBourgeonMeziéresCazaHermann, só prá citar alguns. Dos nacionais, Mozart Couto é, disparado, o melhor de todos em todos os tempos.

Ao lado: Ultrax, o super-herói de

E.C.Nickel pelo traço de Mozart Couto.

O

AH: Algumas coisas do nosso quadrinho nacional ainda me inspiram. “A Múmia” do Shimamoto, que saia pela BLOCH, nos anos 70, por exemplo. E o próprio Mozart Couto, que também concordo, já esteve em nossas bancas com trabalhos maravilhosos. Ainda, teus próprios quadrinhos, Nickel, que já me deram o prazer de encontrar nas bancas de minha cidade. O que você sentiu quando viu teus quadrinhos publicados pela primeira vez?

O

ECN: Bom, isso faz tanto tempo… deixa ver se ainda lembro… A princípio, muita alegria. Quase não acreditava. Lia e relia a história várias vezes para ter certeza que era mesmo verdade. Me senti o verdadeiro “Rei da cocada preta”!… Depois a minha terrível e implacável auto-crítica voltou à tona e comecei a ver um monte de defeitos na história… podia ter caprichado mais nos desenhos, etc…
É até engraçado, meu sentido crítico e auto-crítico: Comecei a escrever e desenhar quadrinhos, é claro, por amar essa arte e admirar muito os seus grandes artistas mas, parte importante da minha motivação foi o fato de achar alguns trabalhos MUITO ruins. Achar que eu certamente poderia fazer MUITO melhor, que aqueles caras não mereciam ser publicados, que eram muito medíocres, etc.
Hoje vejo alguns daqueles meus trabalhos iniciais e os acho horríveis, que jamais deveriam ter sido publicados (isso é ótimo, pois assim devo ter motivados outros artistas iniciantes!…). De outros, entretanto, ainda gosto. Acho que escrevi alguns ótimos roteiros, como os das HQs “Mudança de Turno” e “Monstrinhos“. Essa última está disponível para download no site HQFiles.

O

AH: Pudemos ver que as primeiras HQs do Ultrax são de 2002… Por que você decidiu voltar aos quadrinhos neste formato (downloads gratuitos)?

O

ECN: Na verdade, Ultrax é um projeto bem mais antigo. As versões definitivas das duas primeiras histórias é que são de 2002. Acredito que as três seguintes, já concluídas e com roteiro de Alexandre Lobão, vão consolidar as características do personagem. Minha intenção é fazer o Ultrax conhecido e divulgado e fazê-lo ocupar um lugar de destaque na galeria dos super-heróis brasileiros. Trata-se de um personagem com uma origem bem delineada, apesar de não ser totalmente original como, aliás, a maioria dos super-heróis.
Tentei sua publicação da forma convencional, submetendo-o a algumas editoras. A Opera Graphica se interessou e deveria tê-lo publicado no início deste ano. Só que as borrascas que assolam o mercado editorial voltaram a se manifestar e a publicação foi cancelada por inviabilidade econômica, embora sendo material de boa qualidade artística, segundo a editora. Assim, eu e o Alexandre decidimos disponibilizar essas cinco primeiras histórias na Internet. Dependendo da aceitação e do sucesso junto aos leitores, produziremos novas histórias. Quem sabe um dia Ultrax possa ser encontrado nas melhores bancas… Vamos ver. Só o tempo dirá…

Capas das 3 primeiras edições da revista eletrônica Ultrax,

disponível para download no site Quadroid.

O

AH: O tempo… Por falar nisso, apesar de todas as circunstâncias nebulosas que afetam a produção de quadrinhos brasileiros, parece que há ainda muita gente engajada, trabalhando, sonhando.  Quais as tuas opiniões sobre o estado das coisas? Sobre a tua própria vivência em diferentes “tempos” de nosso mercado…

O

ECN: Acho que a principal motivação do autor de quadrinhos e de qualquer outro artista consiste no imenso prazer de criar. Lembro de vários momentos em que, ao ter uma idéia para um roteiro, imaginar um final inesperado e original ou concluir uma página especialmente desafiadora, fui tomado por uma sensação incrível de pura alegria. É difícil descrever e você, como artista, já deve ter sentido o mesmo. É um breve momento de realização que faz todas as dificuldades valerem a pena. Compartilhar nossos sonhos, é isso que fazemos e, tanto melhor quando somos pagos por isso. Já tive muitos trabalhos publicados e recebi valores irrisórios pela maioria deles. Por alguns nem sequer fui pago. A ICEA, editora de Campinas para a qual desenhei Os guerreiros de Jobah deixou de me pagar por várias HQs publicadas e uma inédita, com 20 páginas e roteiro do Luiz Antonio Aguiar, encomendada por ela. Nunca foi fácil fazer quadrinhos no Brasil e (sobre)viver dessa “profissão” é praticamente impossível. Quando eu escuto de um artista magnífico como Mozart Couto “…estou cansado de dar murro em ponta de faca”, se referindo às dificuldades que mesmo ele encontra para publicar seus trabalhos e ser decentemente remunerado, vejo que a situação está realmente complicada. Em resumo, não recomendo a ninguém a “carreira” de autor de quadrinhos mas dou o maior incentivo a quem quiser produzir HQs pelo simples prazer de criar!…

O

AH: Depois de um depoimento desses, Nickel, eu só posso me sentir mais motivado a continuar fazendo os meus próprios quadrinhos com a paixão de sempre. Por falar nisso, o que você tem achado da produção nacional deste século 21? O que tens lido, acompanhado?

O

ECN: Tendo um reconhecimento desses, por parte de artistas talentosos como você (Law Tissot), o Lorde Lobo, e o Edgar Franco, entre tantos outros que tem contatado comigo depois que iniciei o projeto Quadroid, pode crer que a minha motivação e entusiasmo em produzir quadrinhos é e será cada vez maior. Não tenho acompanhado muito de perto a produção nacional de quadrinhos, ultimamente, até pela dificuldade em ter acesso a ela, exceto pela Internet. O Areia Hostil só conheci recentemente e gostei muito. Vi alguns trabalhos do Jean Okada e gostei muito dos desenhos dele. O que para mim é imperdível é qualquer coisa que seja publicada do Mozart Couto, meu ídolo maior dos quadrinhos nacionais!…

O

AH: Para nós do Areia Hostil, tê-lo publicando aqui* é uma honra e uma maior responsabilidade editorial. Porque crescemos lendo você – entre outros mestres – e agora podemos nos encontrar numa mesma publicação. Tenho pensado muito a respeito do surgimento de um novo momento para a produção brasileira. Onde tudo isso irá parar?

O

ECN: Creio que os momentos mais favoráveis e gloriosos dos quadrinhos brasileiros sempre foram aqueles iniciados por nós, os autores, com trabalhos consistentes e de qualidade. O grande problema sempre foi manter e transformar esses “momentos” em “períodos” mais prolongados. A maioria dos editores brasileiros tem a maior boa vontade e entusiasmo em publicar autores nacionais. Cito como exemplo, o Franco de Rosa, com quem já trabalhei na Press. Agora na Opera Graphica, ele ficou mais de um ano com o Ultrax, na expectativa de publicá-lo. Afinal desistiu, por considerar inviável economicamente. Certo ou errado em sua previsão, eu senti que ninguém ficou mais chateado e frustrado do que ele em não poder publicar. Nem mesmo eu e o Alexandre Lobão, que somos os autores do trabalho. De qualquer forma, o meu Ultrax está aí, sendo visto por muita gente através do Quadroid. Estou muito feliz com a recepção dos leitores e confiante em que, cedo ou tarde, verei meu personagem no lugar que ele merece, as “melhores bancas do país”.

O

AH: Alguém já disse que a internet é o novo underground. Qual suas expectativas a respeito desta tecnologia?

O

ECN: Eu não faria essa analogia, principalmente porque, ao contrário das obras originárias do underground, tudo o que se coloca na internet está disponível para um público imenso, de milhões e milhões de pessoas. É claro que apenas uma ínfima parte desse público vai acessar a sua página pois, além de se interessar pelo(s) assunto(s) enfocado(s), ainda vai ter que saber que sua página existe. Vocês do Areia Hostil, que já estão nessa há algum tempo, sabem muito bem o quanto é importante a divulgação do site. Mas estou falando aqui do potencial da internet, que ninguém pode negar que é imenso.

AH: Que você continue nos oferecendo seus inesquecíveis quadrinhos por muito tempo! Obrigado pela entrevista.

O

ECN: Amém e digo o mesmo para você!… Um grande abraço!

 

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