Areia Hostil #5

Lançada em fevereiro de 2003, durante a XXX Feira do Livro da FURG (Praia do Cassino).
Traz HQs de Ozi, Law Tissot, Carlo Diego, Rodrigo Barbosa, Odyr, Lorde Lobo, Gelson Mallorca, Matheus René e Fabiano da Costa. Artistas “estrangeiros” começam a publicar na Areia Hostil; é o caso de Vagner Francisco.
Ainda nesta edição, matérias especiais sobre vídeo independente (Brócolis VHS) e banda de rock rio-grandina (Dead Flesh Walking).
Formato A5, capa colorida, miolo p&b, 48 páginas.
Edição de Lorde Lobo. Co-edição de Law Tissot.
Publicado em Edições

Areia Hostil #4

Lançada em agosto de 2002. Marcou presença durante a 24ª FEARG / 7ª FECIS.
Traz HQs de Matheus René, Carlo Diego, Ozi, Lorde Lobo, Law Tissot, Stael e Rodrigo Barbosa.
Nesta edição a participação do chargista, cartunista e caricaturista Max Ziemer e a estréia da seção “Arte do Leitor”, dedicado aos leitores-artistas da revista.
Tamanho A5, capa colorida, miolo p&b, 40 páginas.

Edição de Lorde Lobo. Co-edição de Law Tissot.

Publicado em Edições

Areia Hostil #3

Lançada em fevereiro de 2002, durante a XXIX Feira do Livro da FURG (Cassino).
Traz HQs de DHell, Sheila de Souza, Ozi, Stael, Law Tissot, Rodrigo Barbosa, Matheus René, Lorde Lobo, Luciano Canteiro e Carlo Diego.
Estreia nesta edição a seção “Zine-se!” dedicada a comentar e promover o intercâmbio entre leitores e produtores de quadrinhos independentes.
Formato A5, capa colorida, miolo p&b, 40 páginas.

Edição de Lorde Lobo. Co-edição de Law Tissot.

Publicado em Edições

Areia Hostil #2

Lançada em julho de 2001 no plenário da Câmara de Vereadores, durante as comemorações dos 250 anos da Câmara Municipal da Cidade do Rio Grande.
Traz HQs de Law Tissot, Matheus René, Denis Hellebrandt, Sheila de Souza, Ozi, Wagner Freitas, Luciano Canteiro e Lorde Lobo.
Também nesta edição, matéria especial sobre os 250 anos da Câmara Municipal do Rio Grande, a mais antiga do Estado.
Formato A5, capa colorida, miolo p&b, 44 páginas.
Edição de Lorde Lobo. Co-edição de Law Tissot.
Publicado em Edições

Areia Hostil #1

Lançada em fevereiro de 2001, durante a XXVIII Feira do Livro da FURG (Praia do Cassino).

Traz as histórias em quadrinhos de Lorde Lobo, Ozi, Luciano Canteiro, Wagner Freitas, Sheila de Souza, Denis Hellebrandt, Carlo Diego e Law Tissot.Também nesta edição a letra do hino da cidade do Rio Grande (de onde foi inspirado o nome “Areia Hostil) e matérias sobre quadrinhos na internet e publicações alternativas.
Formato A5, capa colorida, miolo p&b, 40 páginas.
Edição de Lorde Lobo. Co-edição de Law Tissot.
Publicado em Edições

Sonhos Radioativos – Odyr Bernardi

 

 

Publicado em Quadrinhos Marcado com:

Vagner Francisco, um grande colaborador

Em 2004 a Areia Hostil começou a publicar as HQs de um artista cambeense(que nasce em Cambé, PR) em seu site, mas o cara foi tão edicado que passou a ser um dos grandes colaboradores da revista. Neste mesmo ano, seu personagem Val ilustrou a capa do Zine.

Para homenagear este artista nós ao invés de publicarmos a HQ da revista aí acima, resolvemos colocar seus primeiros materiais enviados para nós. As HQs são:

  • No congestionamento
  • It’s my life
  • Mais uma do Val
  • Na sala de espera

Veja no link abaixo estas histórias antigas de Vagner Francisco.

PARA LER CLIQUE AQUI!

 

 

 

Publicado em Zona Livre Marcado com:

Areia Hostil entrevista Adão Iturrusgarai*

Adão Iturrusgarai e Lorde Lobo

Adão Iturrusgarai é certamente um dos maiores expoentes dos quadrinhos brasileiros. Dono de um traço inconfundível, este gaúcho de Cachoeira do Sul, onde nasceu em 1965, conquistou seu lugar ao sol, colocando no papel muita ironia e irreverência.

Chegou a cursar alguns semestres de Artes Plásticas, mas formou-se em Publicidade e Propaganda, pela PUC de Porto Alegre. Em 1991, editou a Dundum e pouco tempo depois mudou-se para Paris, onde também publicou. Em 1993 volta ao Brasil, mas fica em São Paulo, onde passa o escrever roteiros para alguns programas de humor da Rede Globo de Televisão. No ano de 1994 foi aceito pelos cartunistas Glauco, Laerte e Angeli e passou a fazer parte do trio Los 3 Amigos. De lá para cá, tem publicado em muitas revistas e jornais de todo o Brasil – e também de Portugal – e atualmente, morando no Rio de Janeiro, vem trabalhando com as tiras e histórias da Aline, uma garota com dois maridos.

Areia Hostil: Quando percebesses que sabias desenhar?

Adão Iturrusgarai: Desenho desde que me percebi como gente. Desde criança. Podem

chamar isso de dom… sei lá.
AH: E como passasses a lidar com esta “nova habilidade”? Pretendias usá-la para o bem (Ó, que legal! Poderei fazer um monte de desenhos bonitinhos e enfeitar o mundo!) ou para o mal (Que menina chata, vou desenhar ela bem feia! Ela vai ver só!)?

AI: Sempre pretendi usar para o “mal”. Meus primeiros desenhos eram feitos com cacos de tijolos e a maioria eram pornográficos ou com o intuito de sacanear alguém.

AH: Até então, praticamente teus desenhos eram vistos só por ti e teus familiares, não? Quando foi que começastes a mostrá-los para outras pessoas?

AI: Quando era criança, depois de meus familiares, as primeiras pessoas a verem meus desenhos eram os meus colegas de aula. Eles sempre me elogiavam e diziam que quando eu crescesse seria desenhista.

AH: Tu era do tipo que lia mais livros didáticos ou revistas de histórias em quadrinhos?

AI: Acho que lia mais histórias em quadrinhos. Mas eu era um bom aluno. Lia os livros didáticos e tirava notas boas. E sem me esforçar muito. O meu maior problema era o mau comportamento. Era um aluno muito chato.
AH: Quais artistas mais te inspiravam na hora de desenhar? Ou melhor: Tu começou copiando quem?

AI: Devo ter começado copiando o Mauricio de Sousa e o Walt Disney. Anos mais tarde comecei a copiar o Henfil. Depois vieram Angeli, Crumb…


AH: Qual foi o teu primeiro personagem próprio? Como ele era?

AI: Tinha os personagens que desenhava quando era criança e não lembro deles direito. Tinha um cientista maluco. Gostava de desenhar os meus colegas de aula. Rocky e Hudson foram meus primeiros person

agens mais conhecidos. Eu tinha 25 anos quando os criei.

AH: Quando começasses a fazer tuas próprias histórias em quadrinhos?

AI: Desde criança. Quando tinha uns 10 anos de idade fiz o meu primeiro fanzine, com a ajuda de um amigo. Acho que lá pelos 14 anos comecei a formatar melhor o meu trabalho, tipo colocar em tiras ou em formato de HQ.

AH: Sabias que se tratava de um fanzine? Quando tomasses consciência disso?

AI: Na época não sabia que tava fazendo um “fanzine”. Não se tinha informação ainda dessas coisas.

AH: Poderias citar alguns títulos de zines editados por ti? Já eram de humor ou outro gênero?

AI: Não fiz muito fanzine. A Dundum era um fanzine de luxo… Também ajudei a montar “Heroína”, com amigos de São Paulo.

AH: Até onde se sabe, fanzine nunca rendeu muita grana pra ninguém. Então, o que fazias pra ganhar dinheiro?

AI: Me formei em publicidade e propaganda e trabalhei alguns anos como diretor de arte em agências e na prefeitura de Porto Alegre, quando o PT assumiu. Isso me sustentava enquanto fazia quadrinhos e esperava o momento pra viver só do desenho.
AH: E esta formação em Publicidade e Propaganda pela PUC/RS, foi pra obter um certo respeito profissional?

AI: Não foi pra obter respeito. Era a opção mais próxima de minhas aptidões. Afinal, não há curso superior de quadrinhos.
AH: Quando começasses a publicar teus trabalhos em jornais? E como se deu esse primeiro momento? Os editores nunca complicaram pelo fato do teu traço não ser tão “comportado” quanto o do Mauricio de Sousa, por exemplo? Ou foi justamente isso que te facilitou a entrada no mercado?

AI: Meu primeiro cartum foi publicado no Jornal do Povo de Cachoeira do Sul, minha cidade natal. Fiquei admirado ao ver meu trabalho impresso pela primeira vez, com minha assinatura e tal. Aí ganhei uma coluna, um quadradinho semanal. Nunca tive problemas com o meu traço. Talvez mais com a temática, mais agressiva que o quadrinho infantil, tradicional. Mas isso acabou se transformando na minha marca e acho que acabou me ajudando.
AH: Teu “boom” profissional se deu quando passasses a trabalhar com o Angeli e Cia, né? Como foi isso?

AI: Em 1993 decidi mudar para São Paulo. Esse foi um passo importantíssimo para profissionalizar minha carreira. Comecei a escrever roteiros de humor para a TV Globo e comecei a publicar na Folha de São Paulo acompanhado de Angeli, Glauco e Laerte. Também comecei a publicar ilustrações em várias revistas.

Los Três Amigos: Glauco, Adão, Laerte e Angeli

AH: Também passasses um tempo morando no exterior. O que isso te trouxe de crescimento, tanto pessoal como profissional?

AI: Antes de me mudar pra São Paulo morei um ano em Paris. Cheguei a publicar timidamente algumas coisas por lá. Mas lá o mercado é duríssimo, como aqui. Então achei mais jogo voltar pro Brasil. Na época, década de 90, as coisas estavam mais quentes por aqui. Paris me trouxe mais crescimento pessoal. Crescimento profissional tive em São Paulo.
AH: Na tua opinião, atualmente tem surgido coisas boas, ou achas que a safra de novos cartunistas tá um tanto fraca? E como tens visto o mercado brasileiro em relação a este ponto? Existe espaço pra todo mundo?

AI: Acompanho o surgimento de alguns novos e bons cartunistas. Não acho que a nova safra esteja fraca. Acho que tem bons desenhistas que ainda não conhecemos. Nunca vai existir espaço pra todo mundo, infelizmente. Aí, o mercado vai sempre estar no prejuízo… e os editores desconhecem os novos desenhistas.


AH:
Nota-se a pouca abertura de oportunidades para quem tá começando agora (e mesmo pra quem já tá há um bom tempo na batalha, mas que ainda não teve sorte suficiente) mas, recentemente, tu deu uma baita força pro cartunista pelotense Rafael Sica, ao indicar o trabalho dele pro editor do caderno Folhateen, do Folha de São Paulo. Mas e pros outros tantos, qual a saída? Mais uma vez, os fanzines seriam a resposta pra essa galera?

AI: Acho que a saída é continuar desenhando, publicando zines, enviando seus trabalhos para os editores. Não existe uma fórmula mágica. E o mercado é pequeno e fechado. Mas, se cair nas mãos de um editor bacana, quem sabe. Foi o caso do Rafael Sica.

AH: Mas voltando ao teu trabalho, quem te conhece, percebe uma certa semelhança física entre tu e o Otto, uns dos namorados da Aline. Isso foi intencional ou aconteceu sem querer?

AI: A semelhança foi sem querer. Muitas pessoas dizem que meus bonecos se parecem comigo. O que eu acho uma afronta porque eles são horrorosos… nariz e beiço grande.

AH: Lá em Pelotas, durante o 1º Fórum de Humor Gráfico (setembro/2003) em uma mesa-redonda, dissesses que consideras a Aline como uma espécie de neta da Rê Bordosa, do Angeli. Também te pergunto se essa foi a tua intenção, ou se ela foi tomando o lugar da Rê, no coração dos leitores, de forma natural?

AI: Não foi intencional de maneira nenhuma. Foi uma coisa natural que refleti depois de alguns anos de publicação da Aline. Muita pretensão minha?

AH: Bem, eu teria mais uma infinidade de coisas pra te perguntar, tipo: Se enxergas a internet como algo que tá vindo pra substituir o material impresso, ou se é só mais uma ferramenta? Quais teus planos para o futuro? Qual conselho darias pra quem tá começando? E assim por diante… Mas não precisas responder estas coisas de sempre porque, pra terminar, vou te deixar com uma pergunta bem cretina: Se tu tivesse nascido Aline, terias criado o personagem Adão?

AI: Não sei se vai substituir o material impresso. Mas a internet vai crescer cada vez mais e os espaços vão se ampliar. Planos para o futuro? Desenhar mais e mais, criar novos personagens, publicar mais livros. Conselhos para quem tá começando? Desenhar bastante, muita coragem e pouca timidez. O caminho é longo e demorado. Se eu tivesse nascido Aline? Ocuparia todo o meu tempo em cuidar de meus dois maridos… pra eles não sumirem do mapa.

Valeu, Lorde Lobo. Abração.

Adão.

AH: Nós é que agradecemos, Adão! Muito obrigado e continue nos brindando com todos este bom humor, através dos seus irreverentes personagens!

E para quem ainda não conhece a home page do Adão Iturrusgarai, deixamos aqui o endereço eletrônico do cara:

http://www.adaoonline.com.br

*Entrevista originalmente publicada em março de 2004

 

Publicado em Entrevistas, Zona Livre

MUTAÇÃO: O Primeiro fanzine de quadrinhos rio-grandino?

Texto de  Law Tissot

Em novembro de 1984, Law Tissot, Marco Muller e Rodnério Rosa criaram o Grupo Mutação de Quadrinhos e lançaram o fanzine Mutação. Esta publicação tinha o espírito da época, pois os quadrinhos independentes começavam a proliferar pelo Brasil. Muitos leitores fiéis ao quadrinho nacional estavam órfãos da Editora Grafipar, de Curitiba (PR), mas podiam encontrar nas bancas as publicações de terror da Editora D-Arte (hoje também extinta), como as revistas Calafrio e Mestres do Terror, que publicavam as histórias em quadrinhos de artistas consagrados como Julio Shimamoto, Mozart Couto, Rodval Matias, Rodolfo Zalla, Flávio Colin e um vasto etc. Essas revistas ofereciam um importante espaço para troca de correspondências entre os leitores e acabou fomentando muitos fanzines, principalmente nos grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro. Neste período surgiu o fanzine Arte-Final, de um pessoal que era fanático pelo artista Watson Portela. Este zine se tornou bastante comentado e acabou inspirando outros fanzines que chegavam para depois irem aos poucos desaparecendo, em meados dos anos 1980.

O fanzine Mutação nasceu com muito sonho e ambição e já no primeiro número ostentava na capa uma ilustração exclusiva do quadrinhista Gustavo Machado – outro nome importante vindo da Editora Grafipar, Marco Muller, Law Tissot e Rodnério Rosa investiam em roteiros sofridamente influenciados pela revista Heavy Metal. Publicaram ainda nesta edição de estréia, um pôster de José Carlos Neves – editor, junto de César Ricardo da Silva, do famoso fanzine de ficção-científica Hiperespaço – e uma biografia de Júlio Shimamoto, feita por Rodnério através de seus intensos contatos com o artista.

Logo após o lançamento deste primeiro número, Rodnério Rosa foi embora para Porto Alegre onde vive até hoje. Na capital, Rodnério andou agitando pela Grafar – Grafistas Associados do RS – e às vezes lança algum número de sua própria publicação, a Made In Brasil. Law Tissot partiu para seu próprio fanzine de quadrinhos cyberpunk, o X-TRO e Marco Muller seguiu em frente, assumido o controle do Mutação, que foi evoluindo a cada número, chegando a ter 132 páginas em sua sétima edição, publicando durante sua existência (no total foram nove edições até 1988) nomes importantes do quadrinho nacional como Olendino Mendes, Mozart Couto, Julio Shimamoto, Henrique Magalhães, Wallace Vianna, Deodato Borges (Mike Deodato)… só para citar alguns.

Mas Marco Muller foi muito além do Mutação, lançando um fanzine após o outro, todos com um excelente cuidado gráfico e de propostas editorias diversas, podemos lembrar aqui dos emblemáticos títulos Leve Desespero e Gesto Estúpido.
Em 1984, literalmente longe demais das capitais, os três amigos não tinham idéia da história que estaria sendo criada com o Mutação. Visto que, até que se prove o contrário, ele foi o primeiro fanzine rio-grandino, dedicado às histórias em quadrinhos, a atingir um reconhecimento em nível nacional.

 

Publicado em Zona Livre

Areia Hostil entrevista Júlio Shimamoto

Por Vagner Francisco (12/03/05).

Ele estreou como desenhista de quadrinhos em 1959, na Editora Continental/Outubro. Entre 1961 e 1964, foi um dos líderes do movimento pela lei de nacionalização dos quadrinhos. Após o golpe militar de 64, foi fichado como comunista e subversivo, tendo que migrar para a publicidade. Sua grande volta aos quadrinhos se deu em 1978 e, a partir de então, não parou mais. Produziu para as editoras, Vecchi, Rio Gráfica, Grafipar, Press e Opera Graphica, além de colaborar com várias revistas independentes, como Made in Quadrinhos e Mystérion (essa última ainda contém o último trabalho do saudoso Flávio Colin nos Quadrinhos). Os álbuns Sombras, Musashi I e II, Madame Satã, Volúpia e Claustrofobia estão aí para provar que ele ainda muito que mostrar.

Estamos falando de um dos mais queridos (e humildes) artistas dos quadrinhos de nosso país. Com vocês: Júlio Shimamoto.

Areia Hostil: Bem, para começar, conte-nos quem é Júlio Shimamoto. Como e quando surgiu o interesse pelas Histórias em Quadrinhos.

Júlio Shimamoto
: Sou um caipira, nascido em Borborema, interior do estado de São Paulo. Em 1944, tinha 5 anos quando ganhei os três primeiros gibis de papai. Morávamos no sertão, próximo das divisas com Mato Grosso, numa região hostil, onde confrontos de jagunços com posseiros eram rotina.

AH: Sombras e Volúpia foram praticamente os álbuns de estréia da Opera Graphica Editora no mercado de HQs. Como se deu esse processo? E, o quanto o senhor participou da criação (da Editora)?

JS: Sombras tinha sido rejeitada pela Editora Escala. Então, Carlos Mann e Dário Chaves bancaram seu lançamento através da recém-fundada Opera Graphica. Minha participação? Nenhuma. O selo inicialmente era apenas nome de estúdio de criação de projetos de publicações para a Editora Escala. Só mais tarde, Carlos e Dario incorporaram uma editora ao estúdio. Depois de Sombras, a Opera me encomendou Volúpia, uma antologia de agaquês eróticas que eu produzira para a Grafipar, de Curitiba, nos anos 1970 / 80.

AH: O senhor ainda lê quadrinhos tradicionais? Se sim, cite alguns, por favor, e suas qualidades.

JS: Raríssimamente. Leio mesmo os fanzines que chegam às minhas mãos. Qualquer um. E gosto. Faz-me recordar meus inícios de quadrinista inseguro e esperançoso. Procuro manter ainda agora essa inquietação de principiante. Repudio o conformismo. Ensinou-me a falecida avó que quando tudo se fica fácil é porque se está prestes a morrer, se já não morreu.

AH: Fale-nos, por favor, um pouco de Claustrofobia. Como foi trabalhar com Gonçalo Júnior?

JS: Conheci Gonçalo quando ele fazia fanzines e me entrevistou. Morava ele na Bahia. Anos mais tarde, conhecemo-nos pessoalmente num evento de agaquês, em Sampa. E a Opera (Graphica Editora) o incumbiu de escrever minha trajetória profissional no Musashi I. Então, contou-me que ele tinha centenas de roteiros escritos e escolheria alguns para me enviar, se eu quisesse quadrinizá-los. Topei para retribuir-lhe o favor (o prefácio de Musashi I). Comentei com ele que as histórias tinham climas claustrofóbicos. Então, Gonçalo batizou o álbum de “Claustrofobia”.

AH: Há bons roteiristas de Quadrinhos no Brasil?

JS: Devem ter. Mas o mercado pobre não os estimula a trabalhar com os quadrinhos. A média de remuneração se resume tradicionalmente a ¼ do que se paga ao desenhista, que já não é muito. Bons roteiristas e redatores estão, ou vão para a publicidade e jornalismo. Até roteiristas de Hollywood ganhavam miséria até poucos anos atrás. Fizeram greve. Só assim conseguiram bônus quando os filmes alcançavam sucessos de bilheteria. Mesmo assim, nunca alcançaram as remunerações de um diretor ou de um ator.

E um roteirista de cinema pasta à beça. Soube de roteiristas que reescrevem até dez vezes para um projeto de filme. O diretor palpita; o produtor palpita; e até o ator pede para adequar o diálogo para seu estilo de interpretação.

E nos quadrinhos não chega a tanto, mas os roteiros sofrem alterações por influências do editor, ou do desenhista.

AH: Assim como está acontecendo no futebol, já há algum tempo, os artistas (ou aspirantes a) de Quadrinhos já não se entusiasmam mais em publicar HQs no Brasil, preferindo desenhar, principalmente, para as editoras americanas, onde há mercado sólido e retorno financeiro garantido. O senhor concorda com essa atitude? Há como revertermos esse quadro?

JS: Concordo. Raras exceções, só quem deixa de ser provinciano e se imbui de mentalidade profissional cosmopolita pode se realizar como quadrinista, com todas as letras. Veja os desenhistas argentinos nos anos 50 e 60: foram para a Europa e os EUA. Salinas desenhou Cisco Kid, para a King Features (para citar um só). Do Brasil, saiu Fernando Dias, Gut (anos 60).

Os irmãos Bá, (Mike) Deodato, Wagner Antunes, etc, também costumam usar seus passaportes para ir a San Diego (a maior convenção de Quadrinhos americanos, onde geralmente, as grandes editoras dão um preview de seus grandes lançamentos da temporada), vender seus talentos. Nos anos 70 e 80, os filipinos vendiam seus “peixes” para editoras americanas (Warren, remember?).

AH: Na sua opinião, qual o futuro do mercado de Quadrinhos brasileiros?

JS: Acho que está escondida no contexto da pergunta anterior. O mercado tupiniquim vai ser sempre do mesmo tamanho de sempre, se não decrescer, é claro. Como os jogadores de futebol, os bons vão desenhar para fora e os provincianos – como eu, caipirão – ficarão por aqui, envelhecendo. Raras exceções, como Mauricio de Sousa e Ziraldo, sobreviverão bem aqui.

(Flávio) Colin, o saudoso mestre, sempre lamentou comigo não ter ido pros States quando teve oportunidade e apoio.

AH: De seu repertório de Histórias, qual a sua preferida?

JS: Não sinto firmeza. Ainda não fiz a minha agaquê preferida. Lembro-me sempre do que disse a minha avó. Tenho vontade de viver mais um pouco, de verdade, ainda que provinciano e matuto.

AH: Que tipo de música o senhor ouve?

JS: Gosto de músicas dos anos 50 e 60, latinas. Atualmente, tenho ouvido músicas populares japonesas, de décadas passadas.

AH: O senhor costuma ir a convenções (tipo Fest Comix)? Se sim, o senhor gosta dessa aproximação com os leitores?

JS: Chamam-me “O Eremita de Jacarepaguá”, pois raramente vou a eventos. Quando vou, até que curto o contato com os colegas e leitores. Continuo caipirão. E se há alguma premiação em meu nome, aí é que não vou mesmo! Tenho pavor de holofotes, ou atenção concentrada em mim. Timidez ou algum trauma de infância, quem sabe?

AH: O que vem pela frente, de Júlio Shimamoto, que poderia nos adiantar?

JS: Vários projetos atrasados: Musashi III; Zatoichi, O Espadachim Cego; Hideyoshi, de Mendigo a Shogum e 100 Anos da Imigração Japonesa.

AH: Bem, agradeço por essa oportunidade de entrevistá-lo e caso o senhor queira deixar um recado para os fãs e para os quadrinistas que estão começando, o espaço é todo seu…

JS: Eu é que agradeço à Areia Hostil por essa oportunidade de falar um pouco sobre quadrinhos, a minha cachaça. Bem, para os fãs, agradeço por me prestigiarem sempre. E aos quadrinistas que estão no início: pensem grande, com a mente cosmopolita. Nunca sejam provincianos. Obrigado pela atenção e abração a todos.

Publicado em Entrevistas