Areia Hostil entrevista O E. C. Nickel

Paranaense de São José dos Pinhais (Município da Grande Curitiba), Eloir Carlos Nickel se radicou em Florianópolis/SC, após ter morado por vários anos em Manaus/AM e Vila Velha/ES.
Teve suas primeiras HQs publicadas pela Grafipar de Curitiba e logo após começou a criar quadrinhos para a Editora Vecchi, na linha de terror e ficção-científica, nas revistas SpektroSobrenatural e Pesadelo. Na ICEA, editora de Campinas/SP desenhou dois números de Os Guerreiros de Jobah e várias HQs avulsas. A fase mais prolífica foi na Press Editorial, com Ofeliano de Almeida e Franco de Rosa, sempre na linha terror/FC. Teve um roteiro, com desenhos de Mozart Couto, publicado em Aventura e Ficção nº 17, da Editora Abril.
A retração do mercado de quadrinhos nacionais fez com que ficasse vários anos sem ter trabalhos publicados e interrompesse sua produção de quadrinhos. Agora está de volta ao mundo da nona arte e disposto a recuperar o tempo perdido.

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Areia Hostil: Como foi que surgiu o teu interesse pelas histórias em quadrinhos?

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E.C.Nickel: Muito cedo, mesmo. Desde que aprendi a ler tenho sido um leitor voraz. Meu pai tinha vários livros, principalmente romances policiais e de aventuras, entre eles alguns do Tarzan. Devorei a todos e, com isso, na tenra idade entre os 6 e 10 anos, creio ter feito ligações nos meus neurônios que estimularam os centros de imaginação e os responsáveis pela criatividade.
Daí para os quadrinhos foi só questão de oportunidade, sem jamais deixar de ler livros. Aliás, não vejo muita diferença entre literatura só com texto e literatura com imagens. Na primeira, basta preencher o quadro mental com as imagens evocadas pelo texto. Os bons livros são aqueles que melhor possibilitam isso.

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AH: Você partiu logo para uma produção profissional? Quero dizer, foi logo procurando uma editora, ou arriscou algum fanzine antes?

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ECN: Só depois que publiquei profissionalmente é que colaborei com fanzines. Na verdade, naquela época (início dos anos 70), não haviam tantos como hoje. Creio que as dificuldades em se editar fanzines eram maiores. A qualidade deles, então, era de doer!… Com raras exceções, eram xerocados e, com o tempo, as páginas grudavam umas nas outras, um desastre!  Mas, mesmo assim, era muito legal colaborar com eles. Destaco, desta época, o Hiperespaço, do guerreiro José Carlos Neves, meu amigo de longa data, embora nunca tenhamos nos encontrado pessoalmente.

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AH: Sim, eu lembro bem dos HiperespaçoJosé Carlos Neves é alguém que também admiramos, aqui, no Estúdio Areia Hostil. Por falar em Hiperespaço, ele trazia muitas informações sobre ficção-científica… cinema, livros, quadrinhos… A ficção-científica, já disse alguém, “é fácil de ser reconhecida, mas difícil de ser definida”. O que pensa sobre isso?

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ECN: Há a definição clássica, mais para a Hard Sci-Fi que seria “toda a história fictícia que extrapola um ramo ou vários da ciência até seus limites, sejam eles plausíveis ou pura especulação imaginativa”. Na verdade, a maioria das grandes obras de FC não têm como preocupação básica a evolução ou descobertas científicas e sim as utilizam como um meio de criar um ambiente ou cenário onde as histórias acontecem. E histórias são sempre sobre pessoas, sejam humanos, alienígenas ou seres artificiais. Por isso muitas obras são realmente difíceis de classificar neste gênero. A ficção científica de que mais gosto é aquela com doses maciças de fantasia: Jack VancePhilip Jose FarmerClifford D. Simak e outros. Também gosto da que explora um lado mais psicológico, filosófico e existencialista, como a de Philip K. Dick e J. G. Ballard. Deste último, já li e reli incontáveis vezes o livroThe Drowned World, publicado em português, na Coleção Argonauta, como Cataclismo Solar. É um livro denso, poético, cheio de imagens fortes e evocativas da extinção inevitável de um mundo agonizante. Sou fissurado em todos os livros de Ballard que conheço, exceto Crash que simplesmente detestei. Nem acredito que foi ele mesmo que escreveu aquela coisa medíocre. E nem é questão de moralismo da minha parte. Não acho nem chocante, simplesmente de um terrível mau gosto.

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AH: Até mesmo as tuas histórias em quadrinhos de super-heróis tem essa carga de referências tipicamente “ficção-científica”. Vejo elementos gráficos e narrativos que lembram Jack Kirby… Poderias falar um pouco das tuas influências gráficas? Assim como quais são teus quadrinhos preferidos.

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ECN: É verdade. A maior parte da minha produção de quadrinhos é de ficção científica. Ultrax é um super-herói mas é também uma série de ficção científica, com todos os elementos deste gênero.

Jack Kirby é referência e influência constante nos meus desenhos. Mas certamente não sou o único. Fiz uma espécie de homenagem a ele no nosso site (www.quadroid.cjb.net), falando da influência que exerceu e exerce em grandes mestres dos quadrinhos, artistas que admiro profundamente, como Barry Windsor-SmithSteve Rude e Jose Ladronn. Também aprecio muito o quadrinho europeu: Moebius (o melhor desenhista do mundo!), BilalManaraBourgeonMeziéresCazaHermann, só prá citar alguns. Dos nacionais, Mozart Couto é, disparado, o melhor de todos em todos os tempos.

Ao lado: Ultrax, o super-herói de

E.C.Nickel pelo traço de Mozart Couto.

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AH: Algumas coisas do nosso quadrinho nacional ainda me inspiram. “A Múmia” do Shimamoto, que saia pela BLOCH, nos anos 70, por exemplo. E o próprio Mozart Couto, que também concordo, já esteve em nossas bancas com trabalhos maravilhosos. Ainda, teus próprios quadrinhos, Nickel, que já me deram o prazer de encontrar nas bancas de minha cidade. O que você sentiu quando viu teus quadrinhos publicados pela primeira vez?

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ECN: Bom, isso faz tanto tempo… deixa ver se ainda lembro… A princípio, muita alegria. Quase não acreditava. Lia e relia a história várias vezes para ter certeza que era mesmo verdade. Me senti o verdadeiro “Rei da cocada preta”!… Depois a minha terrível e implacável auto-crítica voltou à tona e comecei a ver um monte de defeitos na história… podia ter caprichado mais nos desenhos, etc…
É até engraçado, meu sentido crítico e auto-crítico: Comecei a escrever e desenhar quadrinhos, é claro, por amar essa arte e admirar muito os seus grandes artistas mas, parte importante da minha motivação foi o fato de achar alguns trabalhos MUITO ruins. Achar que eu certamente poderia fazer MUITO melhor, que aqueles caras não mereciam ser publicados, que eram muito medíocres, etc.
Hoje vejo alguns daqueles meus trabalhos iniciais e os acho horríveis, que jamais deveriam ter sido publicados (isso é ótimo, pois assim devo ter motivados outros artistas iniciantes!…). De outros, entretanto, ainda gosto. Acho que escrevi alguns ótimos roteiros, como os das HQs “Mudança de Turno” e “Monstrinhos“. Essa última está disponível para download no site HQFiles.

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AH: Pudemos ver que as primeiras HQs do Ultrax são de 2002… Por que você decidiu voltar aos quadrinhos neste formato (downloads gratuitos)?

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ECN: Na verdade, Ultrax é um projeto bem mais antigo. As versões definitivas das duas primeiras histórias é que são de 2002. Acredito que as três seguintes, já concluídas e com roteiro de Alexandre Lobão, vão consolidar as características do personagem. Minha intenção é fazer o Ultrax conhecido e divulgado e fazê-lo ocupar um lugar de destaque na galeria dos super-heróis brasileiros. Trata-se de um personagem com uma origem bem delineada, apesar de não ser totalmente original como, aliás, a maioria dos super-heróis.
Tentei sua publicação da forma convencional, submetendo-o a algumas editoras. A Opera Graphica se interessou e deveria tê-lo publicado no início deste ano. Só que as borrascas que assolam o mercado editorial voltaram a se manifestar e a publicação foi cancelada por inviabilidade econômica, embora sendo material de boa qualidade artística, segundo a editora. Assim, eu e o Alexandre decidimos disponibilizar essas cinco primeiras histórias na Internet. Dependendo da aceitação e do sucesso junto aos leitores, produziremos novas histórias. Quem sabe um dia Ultrax possa ser encontrado nas melhores bancas… Vamos ver. Só o tempo dirá…

Capas das 3 primeiras edições da revista eletrônica Ultrax,

disponível para download no site Quadroid.

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AH: O tempo… Por falar nisso, apesar de todas as circunstâncias nebulosas que afetam a produção de quadrinhos brasileiros, parece que há ainda muita gente engajada, trabalhando, sonhando.  Quais as tuas opiniões sobre o estado das coisas? Sobre a tua própria vivência em diferentes “tempos” de nosso mercado…

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ECN: Acho que a principal motivação do autor de quadrinhos e de qualquer outro artista consiste no imenso prazer de criar. Lembro de vários momentos em que, ao ter uma idéia para um roteiro, imaginar um final inesperado e original ou concluir uma página especialmente desafiadora, fui tomado por uma sensação incrível de pura alegria. É difícil descrever e você, como artista, já deve ter sentido o mesmo. É um breve momento de realização que faz todas as dificuldades valerem a pena. Compartilhar nossos sonhos, é isso que fazemos e, tanto melhor quando somos pagos por isso. Já tive muitos trabalhos publicados e recebi valores irrisórios pela maioria deles. Por alguns nem sequer fui pago. A ICEA, editora de Campinas para a qual desenhei Os guerreiros de Jobah deixou de me pagar por várias HQs publicadas e uma inédita, com 20 páginas e roteiro do Luiz Antonio Aguiar, encomendada por ela. Nunca foi fácil fazer quadrinhos no Brasil e (sobre)viver dessa “profissão” é praticamente impossível. Quando eu escuto de um artista magnífico como Mozart Couto “…estou cansado de dar murro em ponta de faca”, se referindo às dificuldades que mesmo ele encontra para publicar seus trabalhos e ser decentemente remunerado, vejo que a situação está realmente complicada. Em resumo, não recomendo a ninguém a “carreira” de autor de quadrinhos mas dou o maior incentivo a quem quiser produzir HQs pelo simples prazer de criar!…

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AH: Depois de um depoimento desses, Nickel, eu só posso me sentir mais motivado a continuar fazendo os meus próprios quadrinhos com a paixão de sempre. Por falar nisso, o que você tem achado da produção nacional deste século 21? O que tens lido, acompanhado?

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ECN: Tendo um reconhecimento desses, por parte de artistas talentosos como você (Law Tissot), o Lorde Lobo, e o Edgar Franco, entre tantos outros que tem contatado comigo depois que iniciei o projeto Quadroid, pode crer que a minha motivação e entusiasmo em produzir quadrinhos é e será cada vez maior. Não tenho acompanhado muito de perto a produção nacional de quadrinhos, ultimamente, até pela dificuldade em ter acesso a ela, exceto pela Internet. O Areia Hostil só conheci recentemente e gostei muito. Vi alguns trabalhos do Jean Okada e gostei muito dos desenhos dele. O que para mim é imperdível é qualquer coisa que seja publicada do Mozart Couto, meu ídolo maior dos quadrinhos nacionais!…

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AH: Para nós do Areia Hostil, tê-lo publicando aqui* é uma honra e uma maior responsabilidade editorial. Porque crescemos lendo você – entre outros mestres – e agora podemos nos encontrar numa mesma publicação. Tenho pensado muito a respeito do surgimento de um novo momento para a produção brasileira. Onde tudo isso irá parar?

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ECN: Creio que os momentos mais favoráveis e gloriosos dos quadrinhos brasileiros sempre foram aqueles iniciados por nós, os autores, com trabalhos consistentes e de qualidade. O grande problema sempre foi manter e transformar esses “momentos” em “períodos” mais prolongados. A maioria dos editores brasileiros tem a maior boa vontade e entusiasmo em publicar autores nacionais. Cito como exemplo, o Franco de Rosa, com quem já trabalhei na Press. Agora na Opera Graphica, ele ficou mais de um ano com o Ultrax, na expectativa de publicá-lo. Afinal desistiu, por considerar inviável economicamente. Certo ou errado em sua previsão, eu senti que ninguém ficou mais chateado e frustrado do que ele em não poder publicar. Nem mesmo eu e o Alexandre Lobão, que somos os autores do trabalho. De qualquer forma, o meu Ultrax está aí, sendo visto por muita gente através do Quadroid. Estou muito feliz com a recepção dos leitores e confiante em que, cedo ou tarde, verei meu personagem no lugar que ele merece, as “melhores bancas do país”.

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AH: Alguém já disse que a internet é o novo underground. Qual suas expectativas a respeito desta tecnologia?

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ECN: Eu não faria essa analogia, principalmente porque, ao contrário das obras originárias do underground, tudo o que se coloca na internet está disponível para um público imenso, de milhões e milhões de pessoas. É claro que apenas uma ínfima parte desse público vai acessar a sua página pois, além de se interessar pelo(s) assunto(s) enfocado(s), ainda vai ter que saber que sua página existe. Vocês do Areia Hostil, que já estão nessa há algum tempo, sabem muito bem o quanto é importante a divulgação do site. Mas estou falando aqui do potencial da internet, que ninguém pode negar que é imenso.

AH: Que você continue nos oferecendo seus inesquecíveis quadrinhos por muito tempo! Obrigado pela entrevista.

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ECN: Amém e digo o mesmo para você!… Um grande abraço!