Areia Hostil entrevista Edgar Franco

Por Débora Lucas (02/11/04).

Edgar Franco desenvolveu o prazer de contar histórias desde quando aprendeu a falar e logo descobriu a linguagem das histórias em quadrinhos como um dos melhores veículos para sua expressão, mas junto com elas também sempre experimentou outras mídias e linguagens, escrevendo contos e poemas, ilustrando livros, revistas e capas de CDs, projetando arquitetura e websites, além de brincar com os sons em seus projetos musicais Essence & Mu.

Formou-se em arquitetura na Universidade de Brasília, e fez seu mestrado em Multimeios na Unicamp. Entre seus trabalhos de quadrinhos mais importantes estão os álbuns Agartha (Editora Marca de Fantasia) e Biocyberdrama, em parceria com Mozart Couto (Opera Graphica); atualmente Franco tem experimentado criar trabalhos para suportes hipermidiáticos, batizando essa linguagem híbrida de quadrinhos e hipermídia de “HQtrônicas”(histórias em quadrinhos eletrônicas), um de seus trabalhos intitulado Neomaso Prometeu recebeu menção honrosa no 13º Videobrasil – Festival Internacional de Arte Eletrônica (Sesc Pompéia/2001), além disso foi premiado recentemente no programa “Rumos Pesquisa 2003” do Centro Itaú Cultural em São Paulo, com sua pesquisa de doutorado (ECA/USP) “Perspectivas pós-humanas nas ciberartes”. É professor dos cursos de Arquitetura e Urbanismo & Ciência da Computação da PUC – MG (Unidade Poços de Caldas).

AH – Como e quando os quadrinhos surgiram na sua vida?

Edgar Franco – Bem, a história é parecida com a maioria daqueles que desenvolvem a paixão pela HQ, comecei a desenvolver o interesse por quadrinhos na mais tenra infância, incentivado por meu pai que comprava revistas da Disney, Mauricio de Sousa, Mortadelo e Salaminho, Luluzinha e outras. Dos 9 aos 12 anos deixei as HQs de lado e passei a interessar-me por cinema e literatura, lia principalmente livros de contos de terror e fantasia, tomando contato com gênios como Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant, O.Henry, e outros, além de adorar o cinema de fantasia e horror de mestres como Ridley Scott e Dario Argento. O meu retorno às HQs aconteceu por volta dos 13 anos quando passei a me interessar pelas revistas de terror da editora D-Arte – Mestres do Terror & Calafrio, que traziam HQs de terror desenhadas só por artistas brasileiros como Mozart Couto, Flávio Colin, Jaime Cortez e outros, ao mesmo tempo comecei a interessar-me por poesia simbolista, lendo caras como Baudelaire e Álvares de Azevedo o que me despertou para a auto-expressão, isto é, passei a expressar minhas dores e conflitos adolescentes na forma de poemas que escrevia nos cantos dos cadernos da escola. O amor pelo desenho veio junto pois desde novo tinha já um certo talento para a coisa, seguindo instruções trazidas nas revistas de terror comprei pena e nanquim e comecei a tentar desenvolver minhas próprias HQs, sempre com a preocupação de não copiar nada, o que deixava os resultados pouco satisfatórios. Dai em diante não parei mais!


AH – Qual foi a primeira temática que você trabalhou em suas histórias? E qual foi o mais marcante?

EF – Minha primeira HQ chamou-se “O Filho de Lúcifer” e foi publicada num zine chamado Odisséia, era um terrorzão gore mas já trazia esboçado meu texto narrativo poético que tornou-se uma de minhas marcas mais tarde. Aos poucos fui unindo minha veia poética à narrativa quadrinhística, passando a desenvolver também uma paixão por filosofia. Nunca me interessei por Super-Heróis e só vim a lê-los quando do surgimento das obras geniais de Frank Miller e Alan Moore, mas o grande momento foi o meu encontro com a HQ européia e o trabalho de mestres como Philipe Druillet e Caza, onde repensei completamente o conceito de HQ. Depois vieram os zines e o contato com outros trabalhos de vanguarda de contemporâneos geniais como Gazy Andraus, Flávio Calazans e Antônio Amaral, e aqui estamos nós envolvidos nesse universo fantástico dos quadrinhos. A todo dia estou recomeçando, procurando sempre melhorar e acredito que ainda estou só no começo! O meu trabalho mais marcante é sempre o que ainda está por ser feito, germinando na minha essência, como artista sou inquieto e sempre insatisfeito com o que fiz, mas se for pra apontar alguns trabalhos em especial posso citar o meu álbum “Agartha”, com uma HQ de 64 páginas que reflete sobre transcendência e matéria, foi publicado pela Editora Marca de Fantasia, é um trabalho conceitual com um sem número de referências às mais diversas teorias e hipóteses da existência de um paraíso após a morte e as implicações de uma possível persistência do ego; e é claro, meu álbum BioCyberDrama, uma parceria com Mozart Couto que teve ótima recepção de público e crítica. Gosto também de minha HQtrônica “NeoMaso Prometeu” que recebeu menção honrosa no festival Videobrasil. Para quem tiver interesse de navegar por ela, basta clicar na imagem abaixo:

AH – O que é uma HQtrônica?

EF – Minha dissertação de mestrado em multimeios na Unicamp trata da hibridização entre os códigos gráficos da HQ tradicional com as possibilidades abertas pelas hipermídias. Em dois anos de análises cheguei à conclusão de que as HQs hipermidiáticas não são mesmo aquilo que convencionamos chamar de “quadrinhos” , mas também não são desenhos animados. São, na verdade, uma nova linguagem híbrida que funde códigos da linguagem dos quadrinhos impressos como: o balão de fala, a divisão em requadros, a onomatopéia, etc; às novas possibilidades abertas pela hipermídia como: animação, diagramação dinâmica, efeitos sonoros, trilha, sonora, multilinearidade e interatividade! Eu intitulei essa nova linguagem de HQtrônica (um neologismo que funde o termo HQ – história em quadrinhos com o termo eletrônicas), em breve será lançado pela editora Annablume & Fapesp de São Paulo o meu livro “HQtrônicas – Do Suporte Papel à Rede Internet”, o livro é uma atualização de minha pesquisa e inclui um CD-Rom com minhas HQtrônicas “NeoMaso Prometeu” & “Ariadne e o Labirinto Pós-Humano”.

AH – Qual a vantagem de ligar a hipermídia com as histórias em quadrinhos?

EF – Com essa ligação surge um fenômeno intermídia que não é mais HQ, congregando outras possibilidades, uma linguagem nova, com nova sintaxe e em estágio inicial de consolidação. Não quero dizer que essa nova linguagem é melhor ou pior do que a linguagem tradicional das HQs em suporte papel, ela é apenas diferente, eu continuo gostando muito das HQs impressas e criando para essa linguagem, mas também estou abrindo o meu processo criativo para investigar as novas possibilidades das hipermídias. Uma linguagem não irá superar ou ameaçar a outra, elas conviverão pacificamente, como acontece com teatro, cinema, vídeo e os games.

AH – Atualmente essa ligação está sendo bem aceita?

EF – O número de sites que trazem HQtrônicas tem crescido muito nos últimos 3 anos, muitos artistas dos quadrinhos tem se interessado em criar utilizando as novas mídias, sem contar os jovens que já estão aderindo a esse tipo de linguagem hipermídia sem nunca terem desenhado HQs em suporte papel. Acredito que é uma nova possibilidade criativa com um grande potencial, apesar do problema maior que é a questão da remuneração pelo trabalho feito para a web…

AH – Quadrinhos: profissão ou lazer? Por quê?

EF – Viver de HQ no Brasil é quase impossível!! Eu estou conseguindo esse feito agora porque decidi seguir a carreira acadêmica, pesquisando sempre HQs é claro, o meu mestrado na Unicamp foi sobre HQ na Internet, no doutorado (ECA/USP) estou estudando narrativas híbridas e mídia arte, também sou professor dos cursos de Arquitetura e Ciência da Computação da PUC-MG, unidade Poços de Caldas. Meu estilo de narrativa, meu desenho, e o conteúdo de meus trabalhos, o inscreve em uma categoria que podemos chamar de HQ autoral, se fazer quadrinhos no Brasil é uma coisa difícil, imagine então fazer HQs poéticas & filosóficas. Mas eu não abdico de minha expressão pessoal e autoral por nada e continuo fazendo minhas HQs num bom ritmo, sempre buscando veículos interessados em publicá-las, como as revistas alternativas “Scarium”, “Areia Hostil”, “Quadreca (Eca/USP)”, algumas do exterior como “AHBD!” (da Romênia) e “Andromeda” (da Alemanha), sem contar os inúmeros fanzines. Eu já ultrapassei há algum tempo a marca das 1000 páginas publicadas, mas os únicos momentos em que o meu trabalho chegou a um publico maior foram com as revistas “Metal Pesado”, “Brasilian Heavy Metal”, “Quark” e “Nektar”. A editora Marca de Fantasia tem sido uma parceira maravilhosa, acreditando sempre no meu trabalho, ela lançou recentemente o meu álbum “Transessência”, coletânea de HQs curtas onde incluí alguns dos meus melhores trabalhos, também é possível adquirir ainda o já citado álbum “Agartha” e recentemente também foi lançado o livro “História em Quadrinhos e Arquitetura”, um ensaio teórico sobre a relação entre HQs e arquitetura, com mais de 40 ilustrações, incluindo uma HQ inédita minha no final. Os quadrinhos são a minha profissão, mas eu vivo do meu hobby que é ser professor e pesquisador!

EF – Ultimamente tenho feito diversas incursões pela FC, mais especificamente vários trabalhos em mídias diversas – todos dentro do universo que intitulei “Aurora Pós-Humana”, estou trabalhando na série de HQs curtas “Artlectos e Pós-Humanos”, que vem sendo publicada na Areia Hostil, Scarium e Quadreca, também estou desenvolvendo um projeto para transformar a “Aurora Pós-Humana” em um RPG. Além disso o álbum BioCyberDrama II, nova parceria entre Mozart Couto e eu, já está pronto e enquanto procuramos um editor para ele, já iniciamos os trabalhos de BioCyberDrama III, parte final da trilogia. Uma série de 3 novas HQtrônicas intitulada “Crepúsculo Pós-Humano” está aos poucos sendo elaborada e, por último, estou desenvolvendo um trabalho de web arte- que envolve vida digital & algoritmos genéticos – de nome “O Mito Ômega”, enfim, estou ativo e feliz com todos esses projetos que pretendo concretizar no seu devido tempo.

AH – Como está o mercado para esta área?

EF – Como eu disse viver de quadrinhos no Brasil não é uma tarefa fácil. O mercado de HQs é entulhado de material estrangeiro que chega a módicos preços para nossas editoras, já que já obteve muitos lucros em seus países de origem, podem ser negociados a preços convidativos, assim a concorrência com o produto nacional torna-se desleal. E tem também o problema da popularização de outras mídias como games, internet, DVD, tudo isso contribui para a diminuição do interesse pelos quadrinhos. Eu acredito que a longo prazo as HQs serão um produto cult, algo voltado para uma pequena parcela de interessados, publicadas em álbuns de luxo e distribuídas somente em livrarias, vai deixar de ser uma mídia de massa, isso não é legal, pois a formação de novos leitores ficará abalada, mas acredito ser inevitável.

Nós, do Estúdio Areia Hostil, agradecemos à jornalista Débora Lucas e ao quadrinhista Edgar Franco

 

por nos cederem o direito de publicar esta entrevista aqui no nosso site .

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